Uma reflexão necessária sobre a natureza do verdadeiro conhecimento e os perigos de transformar a aquisição de informações em combustível para a suposição perigosa de que “eu sei e, portanto, posso ensinar aos demais.
Amigos e irmãos, salve Deus! Nos templos do Amanhecer que pontilham a região do Cariri, observa-se um fenômeno que merece profunda meditação. Não são poucos os amigos que, durante os encontros fraternos, recorrem quase que compulsivamente a citações de alfarrábios diversos, mencionando esta ou aquela passagem como quem exibe troféus intelectuais. Utilizam o conhecimento livresco como elemento de sobreposição pessoal nos diálogos, revelando uma armadilha sutil: a vaidade disfarçada de erudição.
Precisamos, todos, amigos/as, irmãos/ãs estar atentos. O Evangelho Crístico, em sua essência, jamais pretendeu criar eruditos, orgulhosos de suas bibliotecas mentais. O conhecimento que não se transforma em pão compartilhado, em diálogo fraterno é como água empoçada, que gera limo, lodo, sujeira, adoecendo aquele que se supõe superior porque detém mais informações. Lembremos sempre que o conhecimento, quando realmente assimilado, só pode resultar em moderação e humildade.

O conhecimento que não se transforma em pão compartilhado, em diálogo fraterno é como água empoçada, que gera limo, lodo, sujeira, adoecendo aquele que se supõe superior porque detém mais informações. Lembremos sempre que o conhecimento, quando realmente assimilado, só pode resultar em moderação e humildade.
Escola do Caminho
Paulo de Tarso adverte-nos: “O conhecimento incha; o amor edifica”. Tal ensinamento atravessa séculos porque toca numa questão humana persistente. A aquisição de informações, quando desconectada da experiência vivida; se apartada da compreensão íntima, serve apenas para inflar o ego, criando a ilusão de superioridade que é antítese do verdadeiro progresso espiritual.
Nos diálogos que se desenvolvem, via-de-regra, percebe-se um padrão revelador. Aquele que cita excessivamente, que recorre a cada momento ao “como disse fulano em tal obra” ou “conforme está escrito em determinado livro”, frequentemente esconde algo mais profundo: a ausência de experiência própria, a falta de vivência real dos princípios que proclama conhecer.
A citação em demasia funciona como escudo. Protege o indivíduo de ter que expor-se, de revelar suas próprias buscas, dúvidas e imperfeições. É mais confortável falar pelas palavras de autores respeitados do que admitir: “estou tentando compreender isso na minha própria vida, e tenho encontrado dificuldades”.
Mesmo a neurociência terrena, contemporânea, que sistematicamente desconsidera a dimensão espiritual, demonstra que existe diferença substancial entre o que o cérebro processa como conhecimento memorizado e conhecimento experiencial, que se manifesta em todas as dimensões do ser. Quando apenas repetimos informações, ativamos circuitos de memória declarativa, superficiais e desconectados. Porém, quando realmente dialogamos, trocando energias como irmãos em Cristo-Jesus, os mentores, estes amigos espirituais, convidados pelos tônus da fraterna conversação, tomam parte e o resultado é uma comunicação que carrega energias de natureza elevado e aprendizado de parte a parte.
Um diálogo construído sobre citações excessivas torna-se energeticamente vazio. As palavras flutuam no ar como sombras, desprovidas da substância que apenas a vivência pode conferir. É a diferença entre ler um cardápio e saborear uma refeição, entre estudar anatomia e sentir o coração bater acelerado. Seta Branca nos ensina: “O homem só dá testemunho do que conhece”.
A física quântica, por meio de seus cientistas-mensageiros, abnegados na disciplina do estudo científico, tantas vezes solitário, nos ensina que tudo é energia vibrando em frequências distintas. A comunicação humana não escapa a esta lei universal. Quando alguém compartilha uma experiência genuína, sua fala carrega uma assinatura energética única, frequência que ressoa nos ouvintes de maneira profunda. Esta ressonância não pode ser replicada pela mera repetição de palavras alheias, por mais sábias que sejam. Noutros termos, eu compartilho o que, em essência, sinto, não o que pronuncio.
Os avanços das ciências tradicionais já atestam que quando alguém fala do que verdadeiramente viveu, estabelece-se um campo de ressonância que pode catalisar transformações nos interlocutores. Esta é a energia própria do diálogo autêntico, impossível de se alcançar por meio de citações emprestadas.
A sobreposição nos diálogos: hierarquias artificiais
Utilizar citações como elemento de sobreposição revela uma compreensão distorcida do que seja o encontro espiritual. Estabelece-se uma hierarquia artificial: aquele que leu mais, que memorizou mais passagens, que conhece mais autores, coloca-se implicitamente acima dos demais. A mensagem torna-se clara: “minha contribuição é superior porque tenho mais informações acumuladas”. Esta postura contradiz frontalmente o espírito evangélico. Jesus não escolheu doutores da lei como apóstolos. Escolheu pescadores, pessoas simples cujos corações estavam abertos à transformação. O critério não era o conhecimento acumulado, mas a disposição para aprender por meio da experiência de vida ao seu lado.
O que caracteriza um diálogo genuíno, capaz de produzir crescimento mútuo não é, certamente, a competição de quem cita mais ou melhor. O diálogo autêntico nasce da vulnerabilidade compartilhada, da coragem de cada um revelar sua própria jornada com suas quedas, equívocos, buscas e pequenas conquistas. Quando alguém diz: “- Eu passei por tal situação e isso me ensinou que…”, está oferecendo algo incomparavelmente mais valioso do que uma dezena de citações brilhantes. Está oferecendo sua própria substância, o aprendizado extraído da experiência vivida, temperado pelo suor, pelas lágrimas, pelas noites de insônia e pelos amanheceres de compreensão.
A partilha de experiências próprias possui características inconfundíveis. É humilde, porque admite a imperfeição e o processo. É específica, carregada de detalhes concretos que apenas quem viveu pode fornecer. É vulnerável, expondo não apenas acertos, mas principalmente os tropeços que levaram ao aprendizado. É energética, transmitindo não apenas informação, mas vibração, ressonância, vida.
Suposição perigosa: “sei e posso ensinar”
A aquisição de conhecimento pode alimentar uma das mais perigosas ilusões espirituais: a crença de que sabemos o suficiente para nos posicionarmos como mestres dos demais. Esta suposição revela profunda ignorância sobre a natureza do verdadeiro saber. O verdadeiro conhecimento só pode começar com a humildade de reconhecer a vastidão infinita do que nos escapa. O homem, a mulher, simples em seus labores diários, em casa, na obra, cozinhando o feijão ou carregando o cimento, que praticam diariamente a paciência em situações difíceis; que relevam a truculência alheia com doçura no coração, têm lições preciosas a compartilhar, ainda que jamais tenham lido uma linha sequer. A moça que perdoa diariamente pequenas e grandes questões de todos os dias na vida humana pode ensinar sobre o Evangelho muito mais do que o erudito que se supõe superior porque acumulou bibliotecas inteiras, mas permanece vaidoso, arrogante, sobretudo quando tem oportunidade de exibir sua versação.
Existe diferença abissal entre conhecer sobre algo e conhecer algo. Posso ler tratados inteiros sobre natação, memorizar todas as técnicas, estudar a física dos fluidos e a fisiologia do exercício aquático. Mas até que meu corpo experimente a resistência da água, até que meus pulmões aprendam o ritmo da respiração coordenada, até que meus músculos gravem a memória dos movimentos, não sei nadar. Apenas sei sobre natação. Em toda a vida, nos seus aspectos físicos e extrafísicos, esta distinção é crucial.
O conhecimento vivencial possui peso específico diferente. Sua densidade é sentida. Ele se incorpora à estrutura mesma do ser, modificando padrões de pensamento, de reações emocionais, de escolhas comportamentais. Trata-se de uma verdaderia revolução em si. Não é mera informação armazenada na memória, mas sabedoria encarnada na existência. Manifesta-se em todo seu proceder e cada um de nós a percebe por mecanismos de leitura energética. Quantas vezes temos saído de uma conversação sobre Jesus com um sentimento ruim, um ligeiro mal-estar ou o desconforto de não termos realmente dialogado? Quantas vezes temos vergado a essência do diálogo sobre o Evangelho Crístico à altura medíocre e incoveniente de nossos pequenos caprichos vaidosos na ilusão de um conhecimento?
A transcedente armadilha da erudição: orgulho e vaidade
A sedução da erudição tem, transcedentalmente, iludido nossos corações. Há um falso mérito que parece saciar plenamente nossas carências quando nos valemos do reconhecimento alheio para nos afirmar em nossa vaidade. Os olhares de admiração, os comentários elogiosos, a sensação de sermos vistos como referências pode alimentar o ego, criando mesmo vertigens ilusórias e alucinatórias. Mas é armadilha. Desvia o foco do que é essencial e, não raro, constrange os menos letrados, que podem se sentir inferiores, deslocados. O ambiente que deveria acolher e nutrir pode acabar intimidando e afastando. O caminho da paz de espírito, o céu proclamado pelas insipientes religiões, em sua essência mais pura, é consequência da humildade.

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O caminho da paz de espírito, o céu proclamado pelas insipientes religiões, em sua essência mais pura, é consequência da humildade.
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A questão não é abandonar o estudo ou menosprezar o que se pode conseguir por meio da leitura reflexiva. As obras de tantos e tão diletos amigos, generosamente dedicadas aos nossos paupérrimos corações, são ferramentas preciosas, mapas de valiosa orientação, tochas que tantas vezes são colocadas em nossas mãos pelo trabalho dos mentores. O problema surge quando confundimos o mapa com o território, quando substituímos a jornada pela leitura sobre a jornada.

O conhecimento adquirido deve servir não para nos elevarmos sobre os outros, mas para iluminarmos juntos o caminho que todos percorremos. Não para criarmos hierarquias artificiais baseadas em quem leu mais, mas para compartilharmos humildemente o pouco que cada um compreendeu por meio de suas próprias experiências.

A vaidade é grilhão sutil que tem-nos aprisionado milenarmente na ilusão da superioridade. A humildade do conhecimento vivencial é chave que abre portas para o crescimento genuíno. A cada diálogo, façamos a escolha consciente entre impressionar ou compartilhar. Queremos demonstrar o quanto sabemos ou partilhar o pouco que somos?
O verdadeiro templo, dentro de cada um de nós, não é construído com citações, mas com autenticidade. E quando a luz finalmente desabrochar em nossos corações, não será pelo conhecimento acumulado, mas pela oportunidade de humildemente servir, de aprender e de crescer ao lado de todos os companheiros de jornada.
Jesus nos abençoe a todos! Salve Deus