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O franciscano

1984 despedia-se deixando para trás acontecimentos marcantes em nossas vidas. Tia Neiva esforçava-se por trazer tudo que podia na preparação que o Pai Seta Branca anunciara. Aquele ano era a grande preparação do jaguar: consagrações, umas atrás das outras, emissões que se modificavam, rituais, chamados constantes, reciclagens, enfim, mensagens por todos os meios.

Algo já prenunciava que em breve tia Neiva estaria se despedindo, pois não tardaria o seu desencarne. Seu estado de saúde, por várias vezes a fazia baixar na cama de um hospital. Seus pulmões não funcionavam e seu sangue, carbonizado devido a não oxigenação, não chegava às extremidades do seu corpo, fazendo com que ela sentisse profundas dores. O balão de oxigênio com o qual ela respirava estava enchendo o pouco que restava de seus pulmões de água. Ela falava com dificuldade e mal entendíamos o que ela dizia.

Entretanto, mesmo com todas as dores, as atividades no Vale nunca foram tão intensas… Neste janeiro de 1985, eu Sonia e Batista praticamente não saíamos do Vale, junto com Tavares e Luiz Adão, Joana d’Arc, Nadir e muitos outros mestres, mais tarde chegando Adriana. Formávamos um grupo unido pelas afinidades espirituais. Sonia nos trazia e nos mantinha informados sobre o estado da tia, pois ela sempre fora mais achegada a ela.

Naqueles primeiros dias, o sol nos aquecia a alma de alegrias e esperanças, muito embora algo no ar dizia que aquele ano não seria fácil. A mensagem do Pai Seta Branca tinha sido curta e isso nos era motivo de abrir os olhos.

Assim transcorreram os primeiros meses do ano, sem mudanças ou acontecimentos mais importantes. Nossas vidas percorriam o curso normal a não ser a tristeza por ver a tia, dia a dia mais distante fisicamente de nós. Seu estado de saúde inspirava tantos cuidados que foi instalado um microfone ligado diretamente de seus aposentos ao templo, para que ela falasse sem sair do seu quarto.

Eu via em tudo, prenúncios de mudanças bruscas. Em março, apesar de recém casado, eu começava a sentir, de vez em quando um frio na coluna que me fazia sentir uma angústia muito grande, me colocando num estado de tensão e alerta.

Certa noite estávamos eu e Tavares na casa de Sonia e Batista. Conversávamos sobre a doutrina, quando senti uma projeção muito forte. Em pouco tempo estaria incorporado. Era Pai Benedito, que nos saldou com um ‘salve Deus’.

Em poucas palavras nos prenunciou fortes acontecimentos. Tínhamos que nos preparar para as mudanças que em breve ocorreriam em nossas vidas missionárias.

Ficamos todos muito preocupados com o conteúdo daquela mensagem. O impacto foi geral e não tanto pela mensagem em si, mas porque vinha de encontro ao que cada um sentia. Trocamos algumas palavras, alguns comentários e em breve nos despedíamos na intenção de buscarmos o sono reparador. Chegando em casa, fiz meu pequeno ritual e me preparei para dormir. Tive nessa noite um desdobramento, onde tudo começava a ficar mais claro.

Eu estava numa grande sala, na qual parecia estar acontecendo uma comemoração, pois pessoas bem vestidas estavam ali, muitas das quais eu conhecia, como se comemorassem algum acontecimento.

Em um canto daquela sala, conversávamos assuntos doutrinários e a determinado momento eu me afastei e fiquei sozinho. De repente notei que uma porta esquecida se abria e um homem, um franciscano com a cabeça coberta por um capuz, segurando um cajado caminhava em minha direção. Ao chegar disse:

– Meu filho, preciso vos falar. Peço que me acompanhes.

Eu tentava ver aquele rosto meio escondido e ofuscado pela sombra que a roupa lhe embotara, mas suas palavras eram para mim, como uma ordem e eu somente me pus a obedecê-lo.

Saímos caminhando por um corredor estreito. Após um longo caminho, paramos diante de uma porta larga, que se abriu com um simples toque de suas mãos.

A minha frente uma linda paisagem se apresentou. Uma grande planície se perdia no horizonte. Sobre aquela terra, uma grama muito verde parecia caprichosamente desenhada por mãos de um grande maestro do espaço. Em toda parte, ovelhas pastavam tranqüilamente, com seus pelos de uma alvura intensa. Tudo era muito bonito. O céu cobria-lhes como um grande manto azul brilhante a lhes proteger, dando àquela paisagem uma harmonia indefinível.

Fiquei ali estático a observar sem compreender tudo que meus olhos registravam, ao lado daquele homem que também contemplava o esplendor daquele quadro. Passamos alguns minutos em silêncio e chamando-me atenção, despertou-me com as seguintes palavras:

– Meu filho, essas são as ovelhas que Jesus te confiou e ele não quer que se perca nenhuma.

Passou o cajado para minha mão e se despediu com um salve Deus. Fiquei ali parado por mais algum tempo, perplexo pela beleza daquele quadro e daquelas palavras. Aquela visão, aos poucos foi se desfazendo e quando dei por mim, estava sentado em minha cama, ofegante, como se estivesse com falta de ar.

Sim aquele homem era Francisco de Assis. O tom de suas palavras era profético. As ovelhas só podiam ser um povo, mas qual? Associei tudo aquilo a meus irmãos jaguares e minha missão como raio lunar comunicativo.

No outro dia contei para os meninos…

Publicado em:A Missão do Nordeste,Experiências de um leigo

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