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Biografia missionária

Roteiro biográfico que narra as sucessões de acontecimentos da Missão do Nordeste.

Um certo José Tavares

Nessa rotina, chegamos a 1983. O Vale do Amanhecer fervilhava. , a ninfa Sônia teve um transporte. Ela estava dando bônus em frente ao Turigano e o último nome que escrevia era “José Tavares”. Dias depois o mestre Chiquinho o conheceria. Nas palavras dele:

Aquele tinha sido um dia de intenso trabalho no Vale. Quando conseguimos atender o último visitante já marcava além da meia noite, uma hora da manhã. Naquele tempo éramos poucos médiuns e muitos visitantes, e naquele dia pareciam ter combinado, ali se encontrarem, chegando todos de uma só vez. Distante alguns metros do templo, um aglomerado de lojinhas se dispunham enfileiradas, uma à outra, numa ordem crescente. A secretaria, a loja de souvenires, o atelier de Vilela, uma loja de badulaques para mulheres, de tia Vera, uma lanchonete e acima, a pastelaria que ficava como último estabelecimento desse conjunto, que devido a minha fraqueza, achei longe demais. Chegando lá, aos encontrões e pedidos de licença, consegui aproximar-me do balcão. pedi um café e um pastel. Atendido, fui saindo para degustar o meu modesto banquete, fora daquele pequeno espaço, que naquele momento, tomado de médiuns, nos causava sufoco e aperto. Dirigi-me para frente daquele comércio e ali estacionei não podendo avançar, pois paus roliços à média altura enfiados no chão impediram-me de fazê-lo. Ali foram colocados para no servir de empecilho, para que não se penetrasse pelos flancos em uma área destinada a rituais e trabalhos, fato que, na época, não entendi, mas, de qualquer forma, não era eu o dono. Não me dizia respeito. Caminhei até perto daquele frágil muro de pequenas estacas com arame e fiz silenciosa companhia a um jovem médium, que descansando um dos pés, na cabeça de um toco que pertencia àquela cerca, tomava um café enquanto seu olhar permanecia preso a toda aquela movimentação de pessoas estranhas. Pensei em perguntar-lhe se contava os passantes, tamanha a sua concentração, mas não o fiz.

Ele me notou depois de algum tempo. Então iniciou com típica cortesia a nossa conversação:

– Salve Deus! 

Se fossemos transcendentalmente estranhos, provavelmente aquelas teriam sido as nossas únicas palavras. Mas não éramos. Então após aquele cumprimento, abrimos logo fácil conversação. Ali permanecemos uns 10 minutos presos a um assunto animado que a nós dois interessava. Ressaltávamos o quanto aquele cafezinho era ruim. Brinquei com ele:

– Esse café é fraco, feio, frio, fedorento fermentado e tem formiga no fundo. 

Ele sorriu do tantos ff e arrematou:

– Sete!

– Número iniciático. Café de Jaguar. 

Ele retornou, exclamando:

 – Não! De jaguatirica!

Rimos gostosamente.

Fomos pagar o que devíamos ao pasteleiro e saímos caminhando no continuar da nossa conversa. Conversamos sobre a vida e a Doutrina. Sentamos ali próximos do Turigano, uma estrutura de trabalho que era realizado fora do templo. Passamos, sem perceber, umas duas horas conversando.

Nesse mesmo dia, o mestre Chiquinho apresentou o mestre Tavares ao mestre Batista e à ninfa Sônia. Ali, no banco externo do Turigano, a conversa rolou ainda um bom tempo. Daquele momento em diante não se separaram mais. Foi tão grande a afinidade, a sintonia, a amizade que sentiam extrema dificuldade em se afastar mesmo para as atividades mais corriqueiras. Aquele foi um reencontro transcendental de velhos amigos e irmãos espirituais. Viviam o tempo todo juntos. Quando não estavam reunidos no Vale, trabalhando, estavam na casa de Sonia e Batista. Lá permaneciam em conversas doutrinárias. Não demorava e percebiam que estava amanhecendo; surgiam no horizonte os primeiros raios de sol que acordavam os adormecidos da noite. Os quatro, mesmo virados, tomavam um café e se entregavam às atividades da vida normal. De noite estariam novamente juntos…

Estabeleceu-se um verdadeiro amor sem limites. Não foram poucos os dias em que o mestre Tavares chegava cedinho à casa de Sônia e Batista e os tirava da cama:

– Baixinha, dizia ele:

– Vão pro vale. Vão fazer a Escalada. Eu fico com os meninos.

Eles levantavam e iam. Tavares passava o dia inteiro com Rodrigo e Stela. Fazia café, almoço, arrumava a casa. De noite chegavam a Sônia e o Batista. E, novamente, viraram a noite conversando sobre a Doutrina. As conversas, via de regra, aconteciam na cozinha, onde havia uma mesa branca, redonda, de compensado. Muitas e muitas coisas sobre a Missão do Nordeste se resolveram naquela mesa.

O Tavares logo entrou na sintonia das preces da quinta-feira, nas quais incorporava – na maioria das vezes – Pai Benedito. Essas preces, que durante muito tempo – cerca de cinco anos – contavam com Batista, Chiquinho e Sônia, ganharia agora um quarto membro: o mestre Tavares.

As preces da quinta-feira também aconteciam na mesa branca da cozinha. E foi nessa mesa que, certa manhã, já no mês de fevereiro, o mestre Tavares mandou a boa:

– Baixinha, Batista, bora passar o carnaval na minha cidade?

Não deu outra! A bordo de um Corcel II, carrão da época, os quatro: Sonia, Chiquinho, Batista e Tavares, junto com as crianças, Rodrigo e Stela, punham-se a caminho de Mauriti. Ironicamente, ignoravam totalmente o porvir…


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