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Biografia missionária

Roteiro biográfico que narra as sucessões de acontecimentos da Missão do Nordeste.

O grupo inicial

A vida é uma caixinha de boas surpresas. Sempre está a nos intrigar pelas construções de muitos caminhos aos quais tantas vezes nos opomos por não fazermos a menor ideia do que sejam. Muitas vezes não confiamos na vida e, precipitadamente, negamos ou repulsamos o que ela, generosamente, nos traz. Mas o inesperado chega e nos arrebata desprevenidos, surpreendendo-nos. Assim foi com este caminho que se anunciou aos olhos de todos…

O primeiro membro, dos que vieram para a Missão do Nordeste, a chegar ao Vale do Amanhecer foi o mestre Batista. Isso se deu ainda no começo da década de 1970. Desconhecemos as razões primordiais que o levaram até lá. Mas sua chegada se deu muito antes do casamento com a ninfa Sônia. Quando o mestre Batista chegou ao Vale do Amanhecer, ele ainda estava no seu primeiro casamento, mas em processo de separação.

Por outro lado, em certo momento de sua vida, a ninfa Sônia se deparou com um câncer no útero. A situação foi uma bomba na famíla. É claro que muitos exames foram repetidos, na esperança de que aquilo fosse um diagnóstico equivocado. Mas as esperanças foram vãs e, mediante a irrefutável confirmação da enfermidade, o que restava a fazer era encarar a via crucis de hospital e remédios pesadíssimos.

Em um desses extenuantes dias de exames, medos e angústias, a ninfa Sonia saiu do hospital e pôs-se a chorar pela situação extrema que enfrentava. Um conhecido, vendo-a na rua a chorar, procurou saber a razão de sua tristeza. Informando-o da doença e dos acontecimentos, ele imediatamente a perguntou se ela acreditava em Deus. “Sim”, foi sua resposta lacônica. Dali mesmo foram ao Vale do Amanhecer. Esse conhecido era o Mestre Batista.

Em lá chegando, dirigiram-se, naturalmente, aos trabalhos que já estavam acontecendo. São dela as palavras que se seguem:

“Eu passei na cura. Lembro que havia um doutrinador que eu conhecia. Ele não me viu, porque estava de costa para a porta de entrada, onde eu esperava em pé. Nessa época o atendimento na cura era feito em macas. Então eu pedi ao comandante para ser atendida por ele. Mas meu pedido foi negado. Segundo o comandante, eles já estavam trabalhando há muito tempo e a entidade estava encerrando o trabalho. Assim sendo, desisti de ser atendida. Já ia longe quando o comandante tocou em meu ombro, dizendo-me que aquela entidade, na qual eu pedira para ser atendida, estava me chamando. De volta ao trabalho, fui conduzida à maca. Deitada, cobriram-me com um lençol branco. A entidade se dirigiu ao doutrinador e pediu que ele mentalizasse minha vagina. Então eu perguntei à entidade o que eu tinha; que doença era aquela. Ela disse que não importava; o importante era que eu ia ficar boa. Cheguei em casa tarde e foi uma briga gigantesca. Minha mãe estava preocupada. Eu disse aonde houvera ido e a coisa não ficou legal. No meio da discussão, eu jogava os remédios no lixo, dizendo-lhe que ficaria boa no Vale. Minha mãe pegava os remédios da lixeira e os devolvia ao armário. Foi um episódio triste. Uma única vez reencontrei o doutrinador que havia participado daquele trabalho.”

Poucas semanas depois, Sonia estava curada. Ela e Batista aproximaram-se. Era inevitável. Certo dia, conversavam no portão. Caía a noite. Chegou então o irmão dela. Vinha do trabalho. Era o Mestre Chiquinho.

Daquele momento em diante não se separariam mais; a cada dia a sintonia se fortalecia pela similitude incomum das ideias e pensamentos sobre a vida e lógico, o bom e grande motivo: para Sonia e o Chiquinho, a “recém-descoberta” Doutrina do Amanhecer que lhes era – de certa maneira – apresentada pelo mestre Batista.

As idas ao Vale do Amanhecer foram motivo de muitos conflitos em casa. De tradição católica, Seu Zé Dudu e dona Judite, os pais de Sonia e Chiquinho, não aceitavam que os filhos enveredassem pelas estradas do espiritismo, muito menos se esses caminhos apontassem para o Vale do Amanhecer, segundo eles, “uma fazenda escondida no meio do mato onde ninguém sabia o que acontecia”.

Meses depois, Sonia se casou com o mestre Batista e a cada dia foi-se construindo uma amizade honesta e verdadeira. As crianças não estavam fisicamente presentes nessa época, a não ser Rodrigo, filho do primeiro casamento de Sonia com Amilton. Batista, mais antigo no Vale do Amanhecer, era uma espécie de instrutor inicial. Com bom senso e ponderação, durante muito tempo foi o fiel da balança, responsável pelo equilíbrio daquele pequeno grupo.

Nesta dinâmica, 1978 caminhava para seu fim. Batista, Sônia e Chiquinho eram um só no que tangia aos sentimentos do coração. Uniam-se pelo amor e pelo bem-querer. Essa conquista de coração não se apaga e não havia distinção nesse sentimento doado de um a outro, numa reciprocidade absoluta. Esse, aliás, é o grupo inicial e fundamental da Missão do Nordeste. Foi a partir dele que todas as outras coisas se dariam. Tudo era comentado, discutido, debatido e acordado pelos três.

No Vale do Amanhecer, nessa época, havia uma gíria comum entre os médiuns: pé-de-boi. A gíria foi criada pela própria tia Neiva. Significava que um médium tinha um povo na sua aura. Dizer que fulano era pé-de-boi era o mesmo que dizer que fulano comandava um povo, que tinha muitos compromissos, enfim. O mestre Batista – diziam – é pé-de-boi. Tia Neiva confirmou.

Batista: o pai de milhares de filhos. Certa ocasião ele perguntou a Pai João sobre seus cinco filhos. Pai João, olhando para ele, devolveu a pergunta:

– Cinco? Você possui milhares de cinco filhos… 

Voltando à nossa narrativa, poucas semanas depois Sonia estava curada do câncer. A partir da cura, inicia-se, então, na sua vida, um momento muito especial. Como visitante, regularmente passava nos trabalhos. Lá constantemente era atendida por Pai Joaquim de Aruanda ou Tiãozinho, que estava regularmente incorporado em Telma. Era um momento de confirmação. As entidades diziam o que ela estava pensando ou então previam pequenos acontecimentos, o que a colocava num estado de êxtase.

Ainda em 1978, Sonia e Chiquinho iniciam o desenvolvimento. Muitas foram as dificuldades. Tanto familiares quanto financeiras. Em casa, a família era contra e a grana era curta. Iam para o Vale logo cedo. Almoçavam arroz com banana. Passavam o dia por lá. Jantavam arroz com banana. Entre as refeições, cafezinho. A volta era incerta. Só tinham gasolina para chegar ao Vale. Para a volta, dependiam de doações. O mestre Capuchinho sempre os ajudava doando uns litrinhos de gasolina. Paralelamente à dureza da vida, seguiam fazendo ambiente. As novas amizades do Vale do Amanhecer eram, na verdade, almas irmãs de muitas e muitas eras. Nadir, Badia, Turquielo, Devaci, Mizuta… Enfim…

Vencer as convicções católicas foi difícil. O desenvolvimento deles demorou muito mais que o comum. Chiquinho rasgou os fundos de algumas calças, quicando nos bancos sem conseguir harmonizar a incorporação. Tudo muito espontâneo e natural. Domingo após domingo, o ritual se repetia: banhavam-se nas energias da palestra inicial do velho Tumuchy, Mário Sássi. Depois tomavam as bençãos dos pretos velhos e, na parte específica do desenvolvimento, usavam de todos os estratagemas disponíveis para conseguir incorporar. Ora sentavam perto, ora separavam-se. Nada funcionava. Enquanto se debatiam nas estratégias, assistiam todos os demais sendo promovidos aos níveis seguintes do desenvolvimento…

O emplacamento foi igualmente difícil. Não queriam aceitar que o mestre Chiquinho fosse emplacado com Tiãozinho. Foi necessária a confirmação de tia Neiva. Para o apará foi um momento muito sofrido…

Depois do emplacamento, a ordem era trabalhar. Passaram algum tempo como emplacados e veio a iniciação Dharmo-Oxinto. E dia após dia, semana após semana, o trio inseparável lá estava: no Vale do Amanhecer, distante de casa, até altas horas da noite, sem dinheiro para comer e sem gasolina para voltar. Ainda assim, eram dos médiuns mais frequentes. Quarta e sábado, dias de Trabalho Oficial; domingo, retiro e aula de tia Neiva; Sessão Branca, Angical, Estrela, Tronos, Mesa Evangélica, Cura, Linha de Passe; Alabá, Abatá, Junção e Indução. Como diz Pai Zé Pedro: “enquando descansa, carrega pedra”.

Nessa dinâmica, correram céleres o restante de 1978 e 1979…

Mas para evitar tanto deslocamento, surgiu a ideia de arranjar um lugar no Vale. Por menor que fosse, já representava uma boa economia de gasolina. Noutro sentido, poderiam passar os finais de semana sem maiores preocupações: iriam na sexta, voltariam no domingo ou na segunda-feira de manhã sem qualquer preocupação, além dos feriados prolongados. Enfim, a aquisição parecia de grande conveniência e proveito.

Sonia era a mais próxima de tia Neiva. Não era raro conversarem, embora tia Neiva fosse sempre muito requisitada. A própria tia Neiva já havia prometido arranjar um lugarzinho que os servisse de apoio. Mas demorou e o grupo resolveu agir por conta própria.

Após alguns contatos, eles ficaram sabendo que um amigo próximo, de nome Vilmar, estava vendendo uma casa e o valor pedido cabia em nas possibilidades financeiras. Animaram-se com a concreta possibilidade da compra e, feliz da vida, lá foi a Sonia contar a novidade para tia Neiva. Disse-lhe que estavam comprando uma casa no Vale!

Tia Neiva ficou nos tamancos, indignada:

– Como Soninha!? Comprando casa!? Aqui não é pra isso, minha filha! Aqui não tem lote ou casa pra vender. Isso aqui é de vocês! Um sai de uma casa, outro ocupa! Não tem isso de comprar ou vender…

E dizendo isso, já foi mandando chamar o mestre que cuidava dessa parte:

– Chama pra mim, diz que venha aqui AGORA!

Tia Neiva não demorou a descobrir que a casa, originalmente, era de sua neta, Nancyara e que esta, de forma escondida, havia vendido a casa para o Vilmar. Ficou indignada! Mandou que a chamassem imediatamente e chamou-lhe à atenção com dureza. Obviamente o negócio desandou. Mas ficou o ensinamento. Hoje, assistimos com tristeza a compras e vendas de lotes nos diversos templos do Amanhecer. Negócios fomentados pelos próprios presidentes de templos… Triste…

Infelizmente, no Amanhecer, a questão da compra e venda de lotes está definida. É prática comum e estabelecida. Mas isso nunca foi permitido por tia Neiva enquanto ela estava encarnada. Tristemente verificamos que muitos são os presidentes de templos, comandantes, homens de alta hierarquia desse poder que, com o falacioso discurso de “manter tudo como tia Neiva deixou”, não se furtam a angariar todo tipo de vantagem, inclusive financeira. Numa rápida consulta à internet isso se constata facilmente…

Voltando a nossa narrativa, o jeito foi ficar fazendo o velho e conhecido trajeto Sobradinho – Vale do Amanhecer…


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