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Biografia missionária

Roteiro biográfico que narra as sucessões de acontecimentos da Missão do Nordeste.

Os carros quebrados

Enfim eu estava livre, graças ao meu Pai Seta Branca. Havia quinze dias que me livrara daquele suposto obsessor. Sim, depois da prisão que eu assumira, tudo havia mudado e eu, graças a Deus tinha vencido.

No trabalho de prisão temos que colher assinaturas, que constituem os nossos bônus que, levados ao Aramê, ou julgamento, irão promover a nossa libertação. Nesse período o seu obsessor está sempre a lhe observar, sendo sempre acompanhado pelo seu mentor. Assim eu fiz.

Foi uma grande maratona da qual eu saíra vitorioso. Graças a Deus eu voltara a ser o médium normal que sempre fora: equilibrado e confiante nas minhas coisas, nos meus fenômenos mediúnicos, que se resumia à minha incorporação que já era problemática demais. Pai Tomás estava certo e eu estava novamente livre…

Agora eu iria voltar à minha rotina, pois eu, Sonia e Batista sempre fomos muito trabalhadores, muito assíduos aos rituais do templo. Pelo menos três dias da semana estávamos no Vale, em todos os trabalhos que podíamos. Mas, ultimamente, aquelas aparições tinham-me tirado a vontade de trabalhar e nos últimos dias quase nada tinha feito além daquele Aramê, que fora minha âncora de salvação.

Então resolvi agradecer por tudo que recebera. Era justo, afinal de contas eu tinha me curado e isso era para mim, o maior regozijo que podia alcançar, como também para qualquer médium que vivesse a minha situação.

Aquela era a maior bênção que alguém podia receber. Fui então trabalhar, ajudar, aliviar a dor dos aflitos que nos buscavam no templo em todos os trabalhos, dia após dia, pois eu havia sido curado e só curando eu poderia agradecer…

Quarta-feira quando saí do trabalho, à tarde, já busquei minha sintonia para o trabalho oficial, que já se desenrolava. Nesse dia havia muitos visitantes e poucos médiuns e o trabalho caminhou a passos lentos e morosos, terminando somente muito tarde, só ficando no templo, poucos médiuns espalhados naqueles setores vazios.

Muitos, já vencidos pelo cansaço, só observavam o trabalho dos pretos velhos que terminavam o demorado atendimento. De vez em quando se achava um resto de vela, que tentava sobreviver à fúria do fogo, que lentamente ia consumindo-a. Mais adiante, o sal tinha um gosto forte do perfume e neste último, via-se as pedras de sal que iam se misturando com o odor que ali estivera…

De vez em quando o estralar dos dedos quebrava o silêncio que já ali reinava, ocupando o lugar daquela aparente algazarra de horas antes. Após o encerramento, eu saí do templo devagar e preguiçosamente. Contudo me sentia leve e feliz, coisa que há algum tempo eu não sabia o que era.

No templo fazia calor, mas a noite fria estava também escura pela falta da lua que não nos balsamizava com sua presença direta, deixando esta tarefa difícil para as estrelas que apesar do esforço não conseguiam o mesmo desempenho de sua soberana. Em pouco tempo me desenlacei das minhas armas: tirei minha fita, meu colete e as morsas. Ainda olhei o Vale vazio, onde os últimos se preparavam para o sono merecido, caminhando a passos decididos para suas casas.

Agarrado no volante, não prestava muita atenção no caminho e voava com meus pensamentos relaxadamente, olhando a densa escuridão que corria ao meu lado na janela do carro, que deslizava na estrada rumo a Planaltina.

De repente, senti uma presença muito forte perto de mim. Era uma espécie de calor estranho e quando olhei para o lado vi nitidamente que não estava mais só. alguém estava comigo naquele carro, sentado no banco da frente, de passageiros. Senti um forte arrepio e minhas têmporas pularam incomodadas, como a querer sair da minha cabeça. Era ele novamente:

Escutei sua voz que dizia:

Filho, precisas aprender a confiar em você. O que será de você se não confiares em ti mesmo, na sua própria força? Confiança é a base de tudo o que fazemos.

Eu rapidamente desconfiei que aquilo só pudesse ser o meu implacável obsessor que se passava por preto velho: o Pai Ananias. E de fato o era. Novamente o perfil se mostrou nu, sem que a boca se mexesse, mas da qual eu escutava muitas e nítidas palavras. Pela primeira vez senti a presença do seu corpo e depois de algum tempo, o perfil desapareceu e pude vê-lo de corpo inteiro. Não me lembro de outro momento para trás, que isso acontecera.

Analisei-o dentro do meu senso inteligente, ou que eu considerava inteligente. Sim, eu era tudo menos inteligente naquela época.

Pai Ananias era de média a alta estatura. Seu corpo não era muito musculoso, mas lhe dava um aspecto de forte e me apresentava um homem de uns 55 anos. Seu rosto era expressivo e grave, ao mesmo tempo em que transparecia uma meiguice e suavidade celestial. Aquela expressividade se projetava em maneira singular marcada por fortes fendas que realçava o seu nariz pelicano e muito bem modelado; seus lábios espessos sem muita distinção entre o superior e inferior, eram emoldurados por uma barba tosquiada, acinzentada compondo mais para o preto. Seus olhos negros, suavemente erguidos, despejavam ternura em profusão como a denunciar sua natureza espiritual e moral. Sobrancelhas médias e escuras, um pouco arqueadas, ornavam valorizando o seu olhar e finalmente, encobrindo parte da cabeça, um volume pequeno de cabelos encarrapichados se arrumavam com a não querer se mostrar. Era também de cor acinzentado.

Pensei pela primeira vez: ele não tem jeito de mauzão. Será que todo obsessor é bonito assim. Notei discretamente que as extremidades dos seus lábios arquearam-se para cima. Anunciando leve e discreto sorriso.

Aquele repetido acontecimento me veio como uma bomba em minha mente, um abalo sísmico na minha cabeça. Olhei triste e desarmonizado, e percebi que estava novamente na estaca zero.

– O senhor é insistente mesmo. Não tem nada melhor para fazer do que tirar o sossego dos outros e tentar enlouquecê-los. Despejei minha contrariedade.

Lembrei-me da prisão que eu assumira e percebi que o trabalho não tinha me livrado dele, não tinha servido de nada. Então me desarmonizei por completo. Amargurado, disse-lhe que estavam me deixando louco, e que não ganharia nada com aquilo!

Apelando, pedi que dissesse logo o que eu o teria feito para justificar toda aquela injusta perseguição. Que se fosse meu cobrador me dissesse e não ficasse me enrolando com todas aquelas palavras bonitas…

Ele somente sorriu, o que me deixou em estado de raiva e desespero. Contudo, expressava grande ternura em seu olhar e no seu sorrir, coisa que me jogava automaticamente no inferno das dúvidas. Lembrei-me de suas palavras: “Não se pode negar se não se tem evidências para negar”.

Na verdade, sua atitude dava a legítima impressão de um adulto sorrindo de uma criança e aquilo me irritava profundamente. Por tudo que revelava, ele demonstrava que se importava comigo, e que não estava alheio ao meu sofrimento e à minha dor, embora eu nunca admitisse isso.

Nessa noite, em poucas palavras me tranquilizou e conversamos mais tranquilamente pela primeira vez, ou melhor, ele conversou comigo porque o contrário não acontecia, eu somente o rejeitava. Ele procurava, por tudo que transmitia, se achegar a mim, e, eu, por minha vez, queria cada vez mais que ele fosse embora e não me procurasse nunca mais.

Entretanto me disse que queria me dar uma pequena prova. Falou que eu ia passar por três carros parados, que estavam quebrados no meio do caminho a esperar socorro, e, que no terceiro carro eu parasse e ajudasse a pessoa que estava esperando ajuda.

Imediatamente achei aquilo uma bobagem e tolice difícil de acontecer, mas a partir desse momento, prestei mais atenção na estrada. Ajeitei-me no banco e não muito adiante, passei pelo primeiro carro; não me deixei convencer, afinal eram comuns carros quebrados naquele caminho; sempre, quando vínhamos do Vale, víamos alguém parado na estrada; logo adiante avistei o segundo carro. Torci-me no banco e um calor chegou-me como a querer me derreter. Afinal aquilo era uma batalha e se tivesse três carros ali, ele me venceria e isso não podia admitir. Quase chegando a uma ponte, avistei o terceiro. 

– Meu Deus! Pensei alto.

Meu cérebro começou a rodar como se posto em uma tigela e mãos sacolejassem de um lado para outro.

Assustado pela coincidência, acelerei e passei como se não estivesse vendo; tive medo de parar, pois já era noite e aquele mistério todo me dava também medo e receio. Inflexível, procurei pelo resto do percurso o quarto carro, que seria a minha salvação. O quarto carro me daria a vitória sobre ele e colocaria a história dele desacreditada, mas não encontrei.

Cheguei a casa e mal percebi quando estacionei o carro, tomei o elevador e entrei no apartamento, tão envolvido que estava por aquele acontecimento. Todos já dormiam e eu tentei fazer o mesmo, coisa que não consegui. Estava novamente desarmonizado e triste, pois após quinze dias, tudo voltava a acontecer, tudo o que eu menos queria, estava de novo se realizando.

Novamente a voz se fez ouvir:

– Confiança filho, confiança em si mesmo.

Cobri a cabeça como a querer abafar aquele som e quando dei por mim, acordei no outro dia de manhã.


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