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Biografia missionária

O trabalho de Prisão

Estamos em janeiro de mil novecentos e oitenta e quatro; eu estava noivo e de casamento marcado. Naquele mês aquelas visões continuaram acontecendo e aquele último fenômeno me trouxera uma imensa angústia; depois do que vira, além das dúvidas, que fervilhavam em minha cabeça, uma tristeza e uma vontade de chorar infinitas se colocaram em meu coração e isso me preocupara seriamente.

Nas primeiras visões que aconteceram, pensei que aquilo não se repetiria, que era devido ao meu estado de mediunização, necessidade de mais trabalho ou algo relacionado a isso. Mas depois desse dia eu pensei em procurar Tia Neiva novamente, pois estava se tornando repetitivo, preocupante. Eu não queria aquilo e só ela me ajudaria…

Já estava muito incomodado e seu esclarecimento com certeza me tiraria daquele estado, já muito inseguro e apreensivo. Nessa mesma noite tentei ainda falar-lhe, o que foi em vão. Recebi a mesma resposta de sempre: ela estava muito doente e o acesso fora vetado por seus assessores, na intenção de poupá-la, de protegê-la, pois, seu quadro de saúde não era bom e inspirava muitos cuidados e prevenções. Saí desarmonizado.

Aliás, fora recomendação dos médicos que ela não recebesse visitas a não ser dos familiares próximos. Eu, por meu lado, já começava a ficar cismado com aqueles fenômenos e lembrava que ela sempre nos advertiu que tivéssemos cuidado com as visões; médiuns em desequilíbrio constantemente fabricam suas próprias imagens, pois elas são fruto das falsas projeções de sua mente em desarmonia. Mas o fato é que eu estava só, pois naquele momento a única pessoa que podia me ajudar, me oferecer uma palavra de esclarecimento, de auxílio, me tirar daquela cisma ou confirmar aqueles acontecimentos estava inacessível…

Em poucos dias eu caminhava meio confuso e desequilibrado pelas visões que começavam a se repetir inesperada e descontroladamente; andava triste de um lado para o outro, buscando insistentemente conversar com Tia Neiva, pois não custaria tentar um ‘pé-de-orelha’ como chamávamos. Em vão fiz muitas tentativas de encontrá-la, contudo, cada pessoa que procurava, me negava essa oportunidade. Eu saía sempre frustrado e aborrecido, embora, eu soubesse que aquela atitude era para o seu bem. Na verdade, eu, na ânsia de um esclarecimento, em meu desequilíbrio, em minha solidão é que estava sendo inconveniente e inoportuno.

Sabia, no fundo da alma, que chegara a hora de sua partida, de seu desencarne. Estava chegada a hora do grande teste para cada um de nós, e geralmente esse teste vem pela dor, que naquele momento era a partida de Tia Neiva, pois não tínhamos mais o direito de impedir que ela migrasse para a sua pátria espiritual, seu verdadeiro lar, junto daqueles que constituíam sua verdadeira família, pois sofríamos vendo seu penar…

Agora eu estava só. Agora todos estavam sós. O que seria dali em diante? Como seria sem ela, nossa mãe em Cristo Jesus? Essa era pergunta que todos faziam, e ao mesmo tempo, cada um, silenciosamente, pedia em seu mundo interior que ela fosse embora, pois já havia sofrido demais com a complicação do seu sistema respiratório. Suas dores eram imensas e a coordenação de suas ideias já não era a mesma de outros tempos. Faltava-lhe oxigênio no cérebro e ela vivia praticamente o tempo todo fora do corpo, num estado de inconsciência, e poucas eram as vezes que retornando ao físico, se mostrava com alguma lucidez.

Mas, voltando ao meu mundo, meu drama particular, implorava a todo minuto que corria, aos anjos que afastassem de mim aquelas visões que começavam a me chegar e me desajustar sem que eu pudesse, de algum modo, me defender. Não conseguia entender o porquê de elas me fazerem tão mal, já que outras visões haviam acontecido sem que me causassem o que aquelas últimas haviam causado. Porque elas tinham o poder de me desajustar tanto, de me tirar da sintonia dos trabalhos, de me fazer chorar? A minha conclusão parecia lógica, e acho que todos teriam a mesma resposta: força negativa dos meus obsessores ou falanges que queriam me desequilibrar por completo, me fazer passar por ridículo, por louco ou qualquer outra coisa, menos, me trazer algo de positivo como ele, o velho, dizia. Foi isso que pensei.

Entretanto esse pai Ananias, que se faz passar por bonzinho, que se diz meu amigo e se faz passar por preto velho iluminado, cheio das boas intenções, é um obsessor e, portanto, quer me arruinar. Não devo cair na sua conversa mole e entrar na sua sintonia, pois é isso que ele deseja e para isso trabalha. Mas de hoje em diante, como já sei, já descobri sua origem, vou trabalhar para afastá-lo definitivamente já neste início, antes que ele tente se aproximar cada vez mais de mim.

Esse pensamento sempre me chegava como um sopro divino e me abria nos lábios um largo sorriso de confiança. Não será difícil vencê-lo, afinal sou um 5º Yurê de Pai Seta Branca. Tenho à minha disposição todas as armas de Koatay 108 e o poder dessa doutrina é imensurável. Coitado dele! Pensa que vai me pegar, no entanto sou eu que vou pegá-lo primeiro. Ele com toda sua esperteza não sabe que está mexendo em casa de marimbondo, e quando descobrir vai sumir para bem longe de mim. Nesse pensamento respirei aliviado, prometendo para mim mesmo, trabalhar sem descanso para afastá-lo.

Armei-me então de grande segurança e das armas que pude. Comecei a usar o anel do Pai Seta Branca, a pulseira consagrada por Tia Neiva, o meu talismã de Koatay 108 preso no pescoço; preso a outra correntezinha, outra imagem do Pai Seta Branca. Na minha carteira de bolso, daquele dia em diante, não faltava um retrato de Pai João, de Tiãozinho, de Tia Neiva; do outro lado, minha fita mediúnica, escondia-se entre muitos documentos, ao lado da palhinha da bênção do Pai. Como se não bastasse, comprei duas estrelas e colei no para-brisa do carro como proteção também para o meu meio de transporte. Pronto: estava protegido! Sentia-me pesado como uma árvore de natal, contudo, confiante, decidido e seguro nos meus objetivos. Pensava que nada me atingiria agora.

Em seguida a toda essa preparação, passei nos tronos, tomei minha bênção com um preto velho de verdade; contei minha história a Pai Tomás, que me aconselhou a realizar um trabalho de prisioneiro para aquele espírito que estava em minha aura. Aquela comunicação coroou-me de alegria. Agora é que ele está frito mesmo. Porque não pensei nisso antes? Despedi-me dizendo:

– Obrigado meu pai, Jesus lhe pague.

Ele retrucou baixinho, como sabendo de tudo que acontecia:

– Vai fio, eu te ajudarei…

E assim foi feito. Assumi a prisão e dia após dia, bônus após bônus, caderno por caderno, trabalhei com afinco, dedicação e confiança no afastamento daquele obsessor que vinha dos mundos negros na intenção de me fazer o mal a todo custo. Foram quinze dias de uma maratona sem descanso, cinco mil assinaturas somadas à esperança e confiança de me desfazer daquele implacável cobrador a me perseguir. Os resultados, graças a Deus, não demoraram e começaram a aparecer…

Já se fazia uma semana que havia me libertado no trabalho de Aramê e desde então nunca mais tinha tido aquelas visões nem avistado aquele perfil que parecia rir de mim, dos meus conflitos e de minha desarmonia e do meu estado de desespero. Sim, tudo havia terminado pelas bênçãos de Deus e de Pai Tomás. Novamente sentia-me bem e vitorioso, como se houvesse dado uma demonstração do meu conhecimento, da minha força e do poder absoluto da doutrina, orgulhoso daquela conquista, daquela vitória.

O mais importante é que dedicara ela aos amuletos e souvenires que carregava comigo, elogiando os seus poderes mágicos, dando a eles a função de proteção e de amparo, lhes atribuindo também o mérito pela resolução daquele caso, sentindo-me impenetrável e sábio por tudo que acontecera. No meu silêncio, superior e vitorioso, pensava onde estaria aquele coitadinho: desejo que Pai João, Pai Zé Pedro e Pai Zambú olhem por ele, coloquem o amor em seu coração para nunca mais fazer coisas desse tipo a ninguém…

Nessa noite dormi na casa dos meus Pais. Deitei-me na cama e senti meu corpo, e minha mente, realmente meus, como há muito tempo não sentia. Fiz minha preparação para dormir e fui embora. Não demorou muito, acordei esbaforido dando um pulo da cama e caindo de pé armado para brigar, matar o que necessário fosse. Aquela reação natural foi calçada por um grito de Sinval.

– Tá louco cara!?

Chico! Que barato velho…

Enquanto isso eu puxava o ar pelas narinas tentando reter a minha raiva e me acalmar.

Sinval teve uma visão com o meu espírito. Disse ele empolgado com a sua visão e não com o que vira.

Depois ele explicaria: 

– Chico ele era lindo, translúcido parecendo ser de água cristalina, bem clara, flamulava sem que eu sentisse nenhum vento, e voava pelo quarto.

– Salve Deus! Pensei. Esse camarada é doido. Vai dormi sujeito!

Perdi o sono e ele em minutos ressonava ao meu ouvido parecendo um anjinho.

– Eu mereço, pensei…


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